segunda-feira, 12 de março de 2012

De crianças, adultos e bicicletas

Há uma semana atrás assisti em DVD o clássico de Vittorio de Sica, "Ladrões de Bicicleta". Já estava me devendo  isso. Obra prima que melhora com o tempo, "Ladrões de Bicicleta" continua tocante e a sua narrativa, que não recorre a efeitos especiais e se desenrola de maneira linear, prende de maneira poderosa aqueles que o assistem.

Por coincidência, ontem, assisti a "O Garoto da Bicicleta" (Le Gamin au Vélo), filme belga dirigido pelos irmãos Dardenne. Este, na tela grande do Cine Com-Tour. Novamente,  um filme que, à maneira do outro, envolve uma bicicleta, um menino e um adulto. O impacto que causou em mim foi o mesmo do filme de De Sica.

No filme italiano, a criança, no fim das contas, é um parceiro que ajuda o adulto a seguir em frente ante o mundo, injusto e desigual. Mais de seis décadas passadas, o mundo não tem dado sinais de eliminar injustiças e desigualdades, mas, no filme belga, o menino, junto de sua bicicleta, vive uma espécie de rito de passagem: o mundo pode ser cruel e duro, porém, guarda alguma brecha para que ele, que é um guerreiro, possa enfrentá-lo. Essa nesga de esperança é corporificada pelo personagem Samantha (Cécile de France). Uma figura feminina que se destaca contra um universo masculino marcado pelas arestas mais duras da alma do homem: força e objetividade se sobrepondo a tudo. Samantha tem um conjunto de valores que são claros, muito firmes e possuem grande coerência interna, ou, melhor dizendo, possuem congruência. Ela é capaz de amar e oferecer a Cyril o que todo ser humano deveria ter na infância: alguém que possua a rara habilidade de cuidar do outro.

Não é por acaso que os diretores se valem de uma figura feminina. A atriz Cécile de France, compõe uma Samantha que tem uma sensualidade discreta e um quê de ingenuidade, que revela ser, no fundo, uma capacidade de entrega ao outro que não implica em um auto flagelo. (Uma imagem de mulher, neste início de século XXI, que principalmente os diretores _ homens_  europeus estão ajudando a construir.). A atriz dá a grandeza necessária ao personagem sem, entretanto, deixar de cumprir a tarefa especial para a qual foi escalada: permitir ao espectador compreender o universo emocional do menino Cyril.

E a bicicleta? A bicicleta é, nos dois filmes, um símbolo poético da vida individual que segue adiante mesmo quando o destino se mostra adverso. Um símbolo que, pelo jeito, vai demorar muito a se esvaziar.

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